SÍNDROME DO PÂNICO E MODERNIDADE
(1995)
.A mais nova invenção da psiquiatria e talvez a mais velha angústia do ser humano, hoje encontram-se entrelaçadas naquilo que se denomina "Síndrome do Pânico"
Desde que a psiquiatria assumiu, na área da medicina, o tratamento das "doenças mentais" houve diversas tentativas de catalogar o sofrimento humano, gerando ano após ano novas estruturas classificatórias e diferentes quadros psicopatológicos. O sofrimento humano foi então elevado ao nível de distúrbios emocionais e subdividido, medido, quantificado e categorizado.
A intenção deste imenso e contínuo trabalho foi poder dar mais precisão e verificar a eficácia dos medicamentos psicofarmacológicos, produzidos atualmente em escalas comerciais jamais vista.
Os medicamentos desde então evoluíram muito e hoje já não se concebe mais pensarmos em prescindirmos deles. A psicofarmacologia é hoje uma grande aliada de diversos tratamentos.
Entretanto enganou-se e engana-se quando imaginamos que o sofrimento humano seja algo derivado de um desarranjo químico, em outras palavras que disfunções químicas sejam responsáveis por nossas angústias e ansiedades. Os sofrimentos podem ter sim correlatos químicos e ser aplacado através de medicamentos, mas a sua essência é fundamentalmente existencial.
O que quer dizer isto? O que quer dizer que o sofrimento humano não é uma disfunção química, mas existencial?
Quer dizer que a vida em si mesma é portadora de angústias e ansiedades. Que a vida trás consigo uma série de questões, impasses e dificuldades que terão que ser por nós vivenciados e administrados.
A síndrome do pânico descrita hoje pela psiquiatria como: "uma sensação de catástrofe iminente", apresentando uma série de sintomas tais como: tensão muscular, palpitações, tontura, náusea, dificuldade de respirar, confusão, medo de perder o controle, medo de morrer; talvez seja a "doença", na concepção psiquiátrica, e o sofrimento, na concepção psicanalítica, que mais traduza o mal estar do ser humano deste último século.
Mal estar que reflete a ausência de ideais e a sensação de se estar abandonado no mundo, a mercê de dinâmicas sociais perversas.
A síndrome do pânico reflete a orfandade dos homens que já não possuem norteadores para suas vidas a não ser o sucesso que hoje se traduz como ganhos materiais.
Órfãos do mundo novo eis o que somos. Pânico é o que todos deveríamos experimentar se tivéssemos coragem ou possibilidade de olhar à nossa volta "globalmente" falando.
Que nosso sofrimento possa ser amenizado por drogas legalizadas, possibilitando uma apropriação maior dos rumos de nossas vidas é justo, mas que se afirme que tenhamos disfunções químicas e por isto sofremos é loucura, ou mais apropriadamente falando é perverso.