Olá Iso.

         Tudo bem?

         Gostei de ler o seu trabalho, é fluido e permite pensar. Então, dê licença para que eu possa viajar.

         Acredito que o fio condutor do trabalho é a idéia de que não há lugar para a loucura e para a morte, no sentido de que, na morte, nos confrontamos com a experiência bruta de emergência do Real e na loucura estamos diante da matéria biológica bruta entrelaçada com lampejos quase insuficientes de erogenização; ao passo que nas neuroses, por exemplo, temos um tênue fio que separa e, ao mesmo tempo, une a matéria bruta e o corpo erógeno.

Pude compreender que, neste contexto, o AT seria a agulha que costura a crueza do Real com o Simbólico-Imaginário, ou ainda, a agulha que vai cerzindo a matéria bruta e o sentido. Lembro-me de um recente seminário de Collete Soller intitulado “Trauma e Fantasia”, no qual o folder do evento traz a imagem de um disco de gesso (provavelmente) recoberto com sizal de forma que o sizal parte do centro do disco, indo em direção à periferia do mesmo, seguindo uma forma circular. No entanto, uma certa parcela do disco permanece descoberta. Fiquei pensando que pode ser justamente essa parcela descoberta (Real) que não encontra “lugar” na cultura e que o AT seria uma “instância tecelã” que teria a função de auxiliar o paciente a “tecer”, a produzir tecido para velar a brutalidade dessa imagem e amortecer seu impacto.

O que nos separa da matéria bruta são apenas fios, ora mais ora menos tecidos. Posso reconhecer, pela escuta, a textura do tecido de alguns pacientes: o tecido de B. é a lã, denso, impregnado de fios trançados, utilizado por ela como isolante térmico/psíquico. Com esse tecido psíquico isolante, ela literalmente isola as temperaturas e o impacto do Real. No entanto, não é possível isolar os odores...isso a leva à análise. O tecido de L. é a seda... firme, fresco mas transparente e por essa transparência ela pode ver as sombras que a assombram.

Outro dia tive uma experiência interessante: estive internada por duas noites; sempre tive um mal estar indescritível em relação ao ambiente hospitalar, mas desta vez pude nomear esse mal estar. Eu estava olhando o quarto: lugar bonito, paredes revestidas mas, de repente, saltavam das paredes tubos de oxigênio, suportes para sôro, materias brutos que contrastavam com o revestimento geral do quarto. A cama era revestida por cima mas, do lado de baixo, as ferragens estavam expostas. Oras! As camas que se têm em casa são revestidas de madeira, com colchas de tecido e almofadas... por isso não temos tanto trabalho psíquico para nos mantermos a certa distância (imaginária!) da loucura e da morte. E quando as estruturas férreas da cama (Real) estão expostas? Como velá-las? Outra coisa, sobre vida e morte: sobre as camas de hospital estão corpos doentes, mais ou menos deserogenizados pela doença; a doença expõe os odores, o sangue, as dores carnais, a doença nos expõe ao Real. Pensei que, talvez, não morremos apenas porque existem falências biológicas, mas porque existe uma exposição ao Real: quando doentes, se não conseguirmos nos plugar, ligar os fios e tecer, para produzir tecido, se não conseguirmos manter o “grau de erogenização” suficiente para permanecermos inscritos em um lugar simbólico, seríamos tragados pelas forças da carne, da matéria, do real, o que os deleuzianos chamam de devires animais, quando a vianda (carne, matéria bruta) atrai e traga a cher (carne erogenizada, corpo erógeno). O que nos mantém “inscritos” é apenas um tênue fio... No caso da loucura esse fio tem, muitas vezes, textura delirante e, como você mesmo disse, “(...) o medicamento corrosivo do delírio (...).” seria o agente da morte psíquica.

Nesse jogo de forças, está implicada a posição ética do analista, a “aposta” como você disse. É essa aposta que,a meu ver, sustenta os atos analíticos, quando a interpretação atinge seus limites e já não é mais suficiente para produzir uma força tal, capaz de deslocar, minimamente, o paciente do sintoma, da repetição.

Nessa posição ética, fiel à aposta com as forças da vida, não precisa mesmo haver palavras. Esse lugar auto-engendra um silêncio seguro e consistente, um silêncio pulsante, talvez. Estou lembrando do caso de Benedito, relatado por você: há um silêncio em Benedito, provocado pela ausência de palavras/representações, respiração audível... mas ainda é possível escutar as batidas do coração.  Escutar as batidas do coração é a aposta possível que abre o jogo analítico.

Fiquei impressionada com a clareza do delírio de Benedito: “Teve uma vez que eu pensei um cemitério, tinha os mortos que puxavam para baixo... ia escorregando... ia entrando na terral, na lama.” Essa não é a descrição mesma da “escolha” pela vida, em forma de loucura? Estou pensando na primeira amarração do sujeito, quando ele se depara com o veredicto: o não desejo (ou desejo de morte) ou a morte? E o sujeito “escolhe” amarrar o primeiro fio de sua existência em um desejo de morte pelo simples fato de ainda ser um desejo. Esse caminho, que leva à loucura (talvez, a experiência mais próxima da morte, em vida), pode ser pensado como uma erogenização insuficiente, que não se sustenta enquanto inscrição em um lugar simbólico e o ser é constantemente puxado para baixo, atraído pelas forças da matéria bruta sendo que o único fio... ainda que seja delirante, é escorregadio e permite que os pés toquem os terrenos pantanosos que deveriam estar velados.