O Campo do Acompanhamento Terapêutico (AT): perspectivas político-clínicas[1]

 

 

                                                                                                                          Iso Alberto Ghertman[2]

 

 

Boa tarde.

Quero introduzir hoje minha fala aqui, fazendo uma provocação que se resume nesta frase: “Não existe neutralidade em psicanálise”.
Podemos falar em abstinência do analista, mas jamais em neutralidade. Podemos falar em atenção flutuante, mas jamais em escuta descompromissada.

Vou tentar abarcar este tema, como outros no texto que se segue:  

Roudinesco  - historiadora e psicanalista francesa - diz em uma entrevista no Roda Viva que o futuro da psicanálise estava nos analistas de tênis e calça jeans que ousavam sair de seus consultórios e ir até as periferias e instituições públicas de tratamento.  

Esta imagem associou-se, imediatamente em meus pensamentos, à imagem do Acompanhante Terapêutico.  

Convencionou-se chamar AT determinadas intervenções clínicas que se organizam no dentro/fora dos enquadres e dispositivos tradicionais de tratamento, mais do que isto no dentro/fora das instituições – sejam elas de tratamento ou não: a saber, o consultório, os equipamentos de saúde (HDs, Caps, etc),mas também a família, a escola, os clubes, etc.  

Assim como vocês podem ir percebendo, o AT é aquele sujeito que acompanha alguém – em geral com algum sofrimento psíquico intenso – em sua maioria psicóticos – na circulação através dos espaços públicos/privados que constituem o campo social.

Nossa sociedade tende a dar espaços cada vez mais confinados e especializados aos nossos corpos...se queremos andar – vamos ao parque, se queremos sonhar – vamos ao cinema, se queremos queixar - vamos ao terapeuta, se queremos esquecer – vamos ao psiquiatra, se queremos matar – vamos ao Iraque, se queremos enlouquecer – (silêncio), se queremos morrer – (silêncio). Bem vindos ao deserto do Real![3] A loucura e a morte parecem ser os últimos diques de confrontamento com o Real.

Não podemos enlouquecer nem mesmo nos hospitais psiquiátricos, pois enlouquecer ali é proibido, cujo castigo é o medicamento corrosivo do delírio. Não podemos morrer nem mesmo nos hospitais gerais, pois morrer ali também é proibido.

Permitam-me contar uma experiência pessoal que ilustra o que digo:

“Quando meu filho mais velho nasceu – num hospital muito famoso de São Paulo, teve que ficar alguns dias internado em decorrência de uma insuficiência respiratória. Eu passava muitas horas no hospital, especialmente na UTI neonatal. Havia na UTI um bebê nascido prematuramente, era muito pequenino, cabendo na palma de uma mão. Ainda que muito frágil, teria que passar por uma cirurgia cardíaca em breve. Passados alguns dias, chego na maternidade e ao entrar na ante sala da UTI vejo todas as enfermeiras abatidas, sentadas, desiludidas – ao perguntar o que havia acontecido, fico sabendo que o bebê – prematuro – havia falecido. Eu também um tanto abatido, digo a elas que afinal era um bebê muito pequeno, a cirurgia havia debilitado-o muito, que eles devem ter feito tudo que estava ao alcance, etc, etc, e que afinal as pessoas morrem...neste momento a enfermeira chefe se levanta, se recompõe e em dedo em riste se dirige a mim e diz: - Não aqui neste hospital !”.

Definitivamente carregamos o ideal de erradicar a loucura e a morte do nosso horizonte. Contardo Caligaris num artigo da Folha: “Você sabe morrer?”, discute belamente esta questão afirmando o quanto vivemos hesitantes diante de nossas escolhas - mesquinhos e avarentos diante do que somos  solicitados a fazer a todo instante – e que nos força abdicar um  tanto desse nosso enfadonho narcisismo cotidiano: “Hoje não tenho que acordar cedo”, 

“Antes do jantar não, vai estragar meu cabelo”.

Historicamente o AT surge a partir de toda uma remodelação de tratamento no campo da saúde mental, mais especificamente do tratamento das psicoses.

Com a reforma psiquiátrica marcada pelo fim dos grandes hospitais psiquiátricos, avanços na psicofarmacologia e a construção de equipamentos alternativos para o tratamento da saúde mental: Caps, Naps, hospitais-dia, ambulatórios, residências terapêuticas, o AT surge, diria que emerge, como uma necessidade fundamental deste novo campo terapêutico.

Quando disse que a fala de Rudenesco, associou-se em meus pensamentos, à figura do acompanhante terapêutico logo fica evidente uma primeira associação: o deslocamento – do analista que deixa seu consultório e ousa ir às periferias; que circula, que se  move.

Porém um segundo aspecto desta associação me parece menos evidente.

Este segundo aspecto refere-se ao ato político que se funda e se afirma nesta posição.

Que ato político se funda e se afirma nesta posição?

 A afirmação e reafirmação categórica...através da nossa presença singular, da nossa escuta específica e intervenções precisas que apontam e sublinham que nos é impossível fugir, seja da loucura, seja da morte. Que o conflito é algo inerente a nossa condição humana e o sofrimento é a expressão deste fato.

Que por mais que bombardeamos Iraque, América nunca estará salva. Que por mais que mediquemos, reinventemos medicamentos, reinventemos modelos de tratamento – a loucura sempre estará nos propondo uma nova jogada. Se Freud escutou as histéricas, hoje nós escutamos os deprimidos (paradigmaticamente falando), quem sabe o que estaremos escutando amanhã.

Se a loucura ou as formas de enlouquecer é infinita o que é possível ser feito? (as formas de enlouquecer não são infinitas, mas infinitamente plásticas, isto é são determinadas pelos diferentes contextos históricos e institucionais). Mas retomando esta questão, eu diria que podemos acompanhá-las (as formas do enlouquecer), não apenas acompanhá-las pela simples curiosidade científica para ver onde vai dar, mas acompanhá-las no sentido de encontrar canais criativos por onde ela possa se expressar. É isto que tentamos fazer no acompanhamento terapêutico.

Suely Rolnik, tentando encontrar uma identidade para o acompanhante terapêutico, num artigo que se chama: “Clínica Nômade” define muito bem o que acabei de dizer: “Ele (o AT) se dá conta de que em sua prática não é mais num modelo, seja ele qual for, que ele se apóia efetivamente. Sua referência passou a ser basicamente uma ética: aliar-se às forças da processualidade, buscando meios para fazê-las passar, já que isto é condição para a vida fluir e afirmar-se em sua potência criadora; aliar-se a essas forças e esperar – confiando na possibilidade de que algo venha a se agenciar e, a partir daí, um território venha a ganhar consistência, de modo que uma saúde se faça possível.”[4]

Ora é a própria psicanálise que se define por uma ética e não por uma práxis; as técnicas para por em movimento esta ética podem variar, mas não a ética que as determinam. O AT é uma técnica que pode estar a serviço ou não, da ética psicanalítica, assim como alguém postado atrás de um divã, pode ou não, ainda que se diga analista – estar a serviço ou não desta mesma ética.

O AT é alguém então que circula entre instituições. É alguém, para usar uma expressão contemporânea, que “navega por entre todos estes sites” sem fixar-se a um deles, “navega por entre sites” abrindo e fechando janelas junto com seu paciente e explorando as possibilidades e as afetações de cada passagem.

No trabalho com as psicoses muitas vezes as palavras parecem faltar; não - antes disso, as experiências é que parecem faltar; não - mais do que isto, as experiências costuradas de palavras é que parecem faltar, palavras que virão se inscrever no seio do vivido e elevá-lo somente então à categoria de experiência.

O AT é este personagem que percorre campos, que se estruturam entre espaços já constituídos, como a família, as instituições de tratamento e os espaços sociais: as ruas, vielas, avenidas e ilhas – isto é os shopings, cinemas, bibliotecas, edifícios...um pouco assim como estes lugares destinados aos anjos de Wim Wenders – no filme: “Asas do desejo”. No filme de Wim Wenders (comentário: que ganhou a versão holywoodiana com “Cidade dos anjos”) os anjos percorrem a cidade inteira...você pode encontrá-los sussurrando ao pé do ouvido de quem perdeu a esperança, sentados na cabeceira da pista de pouso de um aeroporto, aos montes na biblioteca...inclinam-se em pé ao lado dos humanos, parecendo querer escutar nossos devaneios, aflições e desejos. Até lembram os analistas que se inclinam em direção aos seus pacientes desde suas poltronas, mas também como o At que se aproxima de seu acompanhado, quase lhe tocando o corpo – quando percebe que este se estremece ao ver aquele bar tão vazio – de repente – ser povoado por seres falantes sabe-se lá vindo de onde.

Pensando bem, como propõe Peter Pal Pelbart  no livro: “A Nau do tempo Rei”, não são os Ats/psicanalistas que se parecem com os anjos,  na verdade a psicose esta muito mais perto desta experiência: o vazio do corpo, a imaterialidade, a atemporadidade, a impossibilidade de se deixar levar pelo amor.

No filme de Wim Wenders, é um anjo como este que diante da condição do amor, resolve se deixar levar, mas para isso ele tem que abandonar sua condição de anjo – tem que virar homem. O processo desta transformação se inicia abandonando-se numa queda e deixando-se espatifar no chão...é com surpresa que ao se levantar, observa um corte em sua testa de onde um liquido vermelho escorre – agora, reconhece, ele tem um corpo. Muitas vezes os processos desencadeados pelo trabalho do acompanhante terapêutico caminha nesta direção, possibilitar novamente a seres que abandonaram sua condição de homens transformando-se em anjos, recuperar certa condição terrena. Anjos estes que não cumprem certo desígnio divino, mas vagueiam ao sabor do vento, sendo muitas vezes capturados a esmo e depositados em grandes cárceres.

Vou contar-lhes um pequeno fragmento de atendimento, em um programa de estagio em Acompanhamento Terapêutico que coordeno e supervisiono (junto com outros dois amigos) há cinco anos em um hospital Psiquiátrico de São Paulo – na periferia, aliás onde eles sempre estão.

Este hospital conta com cerca de 450 pacientes, entre crônicos e agudos. Entre estes existem cerca de 50 pacientes moradores que se encontram, na sua maioria, em estado de completo abandono por anos, se não décadas. São rostos sem nomes, corpos sem donos. Memórias ofuscadas por delírios que já não se dirigem para ninguém. Ao abandono familiar, social vem somar-se o abandono institucional - o hospital, perdido nas malhas da reforma psiquiátrica, vive espremido entre várias demandas: os pedidos de internação crescentes (já que muitos hospitais particulares e do governo estão fechando), os pedidos do governo que determinam condições de tratamento impossíveis de serem atendidas, uma rede de assistência médica pública sem capacidade de atender cidadão comuns, quem dirá louco, e uma rede de tratamento alternativo ainda muito precária.

Dois anos depois de iniciado o estágio neste hospital, os Ats junto com a equipe do hospital, sentiram a necessidade de estruturar um espaço - dentro do hospital - destinado aos seus moradores. Eles que antes, encontravam-se espalhados pelo hospital, passaram a contar com um espaço específico para sua moradia e tratamento – este lugar recebeu o nome de Vila.[5]

Benedito, alguém com 50 e poucos anos, de estatura pequena...é um de seus moradores. Há alguns anos no hospital, chegou trazido pela polícia que o havia achado perambulando na rua embriagado.

Não soube informar com exatidão de onde vinha...para onde ia.

Há alguns meses foi indicado para o AT. Duas Ats o acompanhariam nesta jornada.

Era curioso perceber que,  com uma desta Ats, Benedito pouco falava; mostrava-se, monossilábico ou mudo. A At, por sua vez, ficava angustiada e indignada, emudecia-se também. Por vezes sua indignação voltava-se contra mim – seu supervisor, numa espécie de “fúria” que se queixava do estágio, de estar ali para nada...dizia que talvez Benedito tivesse algum tipo de rebaixamento intelectual que impedia que ele se comunicasse. Como ela poderia ajudá-lo a reconstruir sua história, saber quem ela era, se ele não demonstrava interesse algum por ela ou por aquele lugar, por nada?

Eu costumava dizer a ela que tudo que ela tinha que fazer era esperar – o que a deixava mais angustiada ainda. Porém dizia algo mais. Que estar ao lado de alguém, esperando que algo venha a surgir, não é simplesmente estar da mesma maneira, na mesma posição , isto é: como um ser mudo ou apático. Para esperar é necessário, antes de tudo, que tenha sido feita uma aposta. Mesmo que seja em alguém feito de pedra. Ter sido feita uma aposta é poder dar espaço, passagem para fazer vibrar em nós a dor do outro.

Se não houver palavras neste outro – que representem sua dor, então que cheguemos mais perto e escutemos sua respiração, se não houver respiração audível, cheguemos mais perto e escutemos a batida do seu coração. Foi isto que propus a At, que chegasse perto e procurasse escutar as batidas do coração de Benedito.

Atenção, não incorramos no risco de confundir esta posição com empatia, amor ao próximo ou algo do gênero – é algo bem distante disto, diria até mesmo oposto.

Voltando à nossa At, o que eu pedia a ela era que simplesmente fizesse uma aposta.

Feita a aposta o jogo começa. Ele já tem para quem falar.

Entre palavras soltas, delírios mesclados a fragmentos de história – contadas por Benedito ou apanhadas fortuitamente em seu prontuário, uma palavra parecia insistir: Atibaia.

Benedito conta que trabalhava com um japonês numa plantação de morangos, mas que havia sido despedido por comer mais morangos do que colher. Atibaia também era o local onde havia morado com sua família, sua madrasta falecida e seus irmãos, de quem não se sabia o paradeiro. Um deles, segundo Benedito, havia morrido.

Conta que aos 18 anos havia sido internado pela primeira vez no Juquerí. Indagado por que havia sido internado apenas responde que estava fazendo besteira: “jogando umas pedras”. Foi nesta mesma época, aos 18 anos, que depois conta que sua mãe falecerá – localizamos então o que pareceria ser as circunstâncias de seu primeiro surto e daí em diante uma infinidade de internações.

Nasio[6] coloca que “a dor só existe sobre um fundo de amor.” Ou seja, só podemos vibrar com a dor do outro sob um fundo de amor. Eu diria que a transferência se estrutura sobre um fundo de amor.

Não apenas sobre um fundo de amor na direção do paciente ao analista, mas também do analista em direção ao paciente. Isto não quer dizer que devamos amar - no sentido literal nosso paciente, é até bom e necessário que isto não aconteça, mas que façamos uma aposta.

Benedito. Benedito foi aos poucos saindo do anonimato que se encontrava na Vila, as pessoas (outros pacientes e enfermeiros) já o conheciam. Aos anos sem sair do hospital e alguém que pudesse, verdadeiramente estar ao seu lado, sucederam-se as primeiras saídas para fora do hospital. Benedito apontava e dizia: carro, caminhão, fumaça. Era como se o mundo voltasse a se descortinar em sua frente. O vínculo com as Ats foi se estreitando.

Próximo à época das eleições Benedito diz que quer votar. Como poucos no hospital Benedito ainda carregava consigo seu RG. Dizia que votava em Atibaia, numa determinada escola. As Ats acham pouco possível que isto pudesse se realizar já que provavelmente ele havia deixado de votar há vários anos, indagavam-se até mesmo se a tal escola existia.

Digo a elas que de qualquer maneira, esta era uma boa oportunidade de fazerem uma pequena viajem até Atibaia e tentar verificar os efeitos desta excursão. Poderiam em ato, verificar junto com ele, quais os processos necessários para recuperar novamente o direito de votar, verificar as lembranças despertadas nesta cidade tão significativa a ele, e mesmo incrementar – o que talvez seja nosso objetivo principal – uma mudança de posição frente ao seu destino trágico. Que em linhas gerais se resume em apropriar-se de sua história, naquilo que for possível, retificar um presente e incluir-se enquanto agente do seu próprio futuro.

A viagem estava pronta, data marcada, fantasias desfeitas, as Ats já poderiam acompanhá-lo nesta jornada de meio dia.

Benedito fica calado quase o percurso inteiro até Atibaia. Parece tenso. Seus olhos acompanham as paisagens que desfilam pela janela do carro. Chegando à entrada da cidade sua fisionomia começa a se modificar, o silêncio da lugar as palavras de quem chegou em território há muito familiar. Primeiro vai dizendo o nome das ruas que passam, logo à frente esta a padaria que trabalhou e morou – como havia dito antes numa conversa com a At. As Ats vão ficando surpresas e espantadas com a memória de Benedito, aliás nem desconfiavam, por vezes, que ele ainda pudesse preservar alguma. O carro percorre algumas ruas até Benedito dizer:

-          É aqui!

-          O que é aqui Benedito?

-          É aqui a escola que eu voto.

Sua expectativa de votar ainda continuava viva apesar das repetidas advertências da Ats que isto seria praticamente impossível. O carro para e eles descem – que isto seja então – pensam as Ats - uma descoberta feita por ele mesmo. Ao se aproximarem do local de votação, perguntam na mesa de informações se era possível Benedito votar, ele que se imaginava, estaria anos sem ter votado e contava apenas com a carteira de identidade. Recebem a orientação de ligar para o número do cartório regional que estava atendendo neste dia. Nova surpresa, eles ligam e alguém, do lado de lá, atende. A At explica novamente a situação, a pessoa do lado de lá, anota o nome de Benedito e pede para que liguem em 10 minutos. Benedito assiste a tudo com interesse. 10 minutos passam e nova ligação...uma surpresa maior ainda: Benedito pode votar, ele não havia comparecido apenas nas duas últimas eleições e o título permanecia válido. A alegria do trio converte-se em agitação, uma espécie de alvoroçamento percorre a todos até que de repente é interrompida diante de algo mais inesperado ainda, move-se alguém em direção a Benedito, este alguém diz:

-        E aí Tarzan!

 Como assim, quem é este que fala, quem é Tarzan, será que confundiu Benedito com alguém?

  Benedito responde:

 -          Tudo bem.

Como assim, você o conhece? Você teve outra vida que não a do hospital? Você é alguém? Você foi alguém para alguém?

É surpreendente ver os rostos, as falas dos estagiários deste trabalho -  se iluminando e se modificando com a descoberta de uma história, de uma subjetividade que se apresenta lentamente ao longo destes processos. É como se a vida surgisse, literalmente, das cinzas.

Há algo fundamental e vivo que eu tenho retido nestes anos de trabalho no hospital, saber que diante da mais sombria figura que se apresente diante de nós, há um sujeito. Não um “ser humano”, como as enfermeiras mais caridosas costumam dizer para as pessoas que se arriscam entrar no hospital: “Eles também são gente!” – mas um sujeito, que guarda em si as memórias, os conflitos e as dores de uma história. Quando alguém diz: “Eles também são gente” quer dizer que algum dia, em algum momento, chegou a pensar que não – que não fossem gente.

A aposta necessária na psicose nas palavras de Lacan “nunca retroceder diante da psicose”,  faz sentido como a entendo, diante desta perspectiva: nunca desistir de acreditar que há ali um sujeito, uma história perdida, alguém que clama uma escuta, mesmo que seja se postando ao nosso lado no mais profundo silêncio.

Neste sentido diria nunca retroceder diante da psicose, mas também nunca retroceder diante da histeria, da neurose obsessiva, do adolescente, do morador de rua, do velho, etc.

Veja que o trabalho com psicóticos vai nos tornando um pouco também (psicóticos) – dizer que uma pessoa prostrada ao nosso lado pede, clama uma escuta – é no mínimo bizarro. Bizarro, porém aos olhos de quem não pode fazer esta experiência. Assim como parece bizarro falar em inconsciente a quem nunca pode se defrontar com o seu (o inconsciente não existe até que ele se presentifique em ato[7].

A psicanálise não é neutra, é tudo menos neutra. Partilhamos de uma concepção específica de sujeito e de todos os desdobramentos desta posição. Existem outras concepções.

Os analistas da atualidade, sejam eles Ats ou não, estão embrenhados do campo social, fazem vibrar em seus corpos as pulsões que tentam articular passagem diante de um impiedoso, mas inevitável real.

Diante desta perspectiva vai se estruturando uma ética...que podemos chamar da ética do desejo ou ética da passagem, isto é uma conduta que esta orientada em dar passagem para as potencias constitutivas e singulares de cada sujeito que até então, só encontraram expressão através dos sintomas que as amarravam (as potencias criativas) e faziam  o sujeito sofrer.

Benedito/Tarzan encontra alguém que imaginava que ele estivesse morto – este alguém diz conhecer seu irmão, e que este, também, imagina o mesmo. Benedito não quer vê-lo (seu irmão). Será que ele mesmo, Benedito, não se imaginava morto? Seguem a caminho de volta ao hospital, no trajeto Benedito narra um delírio em forma de história: “Teve uma vez que eu pensei um cemitério, tinha os mortos que puxavam para baixo...ia escorregando...ia entrando na terra, na lama”.

A lama do hospital traga a todos que ali estão, assim como a lama da loucura engoliu Benedito todos estes anos. Quem sabe Benedito/Tarzan encontre, junto com as Ats, um cipó para se segurar, e pendurando-se numa história capenga – possa ir saltando, de árvore em  árvore, para outras florestas bem longe dali.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS:

CALLIGARIS, Contardo. 2003. Você sabe morrer? In Artigo publicado na Folha Ilustrada do dia 22 de Maio de 2003. Folha de São Paulo. São Paulo.

NASIO, J.–D.1997. O Livro da Dor e do Amor. Jorge ZAHAR Editor. Rio de Janeiro.

PELBART, Peter Pál. 1993. A Nau do Tempo Rei: Sete Ensaios Sobre o Tempo da Loucura. Ed. Imago. Rio de Janeiro.

ROLNIK, Suely. 1997. Clínica Nômade. In EQUIPE DE ACOMPANHANTES TERAPÊUTICOS DO INSTITUTO A Casa (org.).

Crise e Cidade: Acompanhamento Terapêutico. EDUC. São Paulo.

ZIZEK, Slavoj.2003. Bem Vindos ao Deserto do Real ! Boi Tempo Editorial. São Paulo.



[1] Texto apresentado no I Encontro de Psicanálise de Goiânia - Desafios da Clínica Psicanalítica na Atualidade em 05/11/2004. Promovido pela Clínica Dimensão e o Grupo de Transmissão e Estudos de Psicanálise do Depto. de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.

[2] Psicanalista, Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, Sócio fundador da ONG: ATUA – Rede de Acompanhamento Terapêutico – www.atuanarede.org.br

[3] Título do livro de Slavoj Zizek : “Bem Vindo ao Deserto do Real”. O conceito de “Real” aqui colocado, refere-se à noção Lacaniana de Real. O Real como impossível.

[4] ROLNIK, Suely. “Clínica Nômade”. Pág. 92.

[5] A Vila era um projeto antigo da equipe do hospital que passa a ganhar força com o trabalho dos Ats.

[6] Nasio, Juan David – “O livro da dor e do amor”

[7] Geralmente este ato...muitas vezes gerador de um outro que é o passar da posição de quem é escutado para quem escuta (tornar-se analista), é o ato desencadeado no processo analítico. Acontece, obviamente, que isto possa se produzir em outros campos (a experiência de se defrontar com o seu inconsciente em ato) – o que eu estou tentando dizer é que, por exemplo na literatura, é evidente a experiência do escritor com seu inconsciente. Só que em si mesma, ela, esta experiência, não instrumentaliza quem a experimenta...seja do lado do escritor ou do leitor a se tornar um analista. Mas sem dúvida remete ambos a se depararem com algo que os constitui que esta para além ou aquém do domínio e lógica da razão partilhada comumente.